quinta-feira, 21 de março de 2024

COMO A NOSSA VIDA É LINDA. Uma celebração do amor. Vovô Chan e Vovó Marina. 2022



 "A palavra é 'in-yeon' e significa 'encontro do destino' ou algo do tipo. Uma conexão predestinada" (09)

"Mas , por sermos pessoas comuns, ambiciosas e trabalhadoras - incapazes de pressentir as incertezas e a época imprevisível que se aproximavam -, apenas vivíamos de acordo com a lei da inércia, esperando que cada dia fosse igual ao anterior" (13). 

" Nos últimos tempo, o vovô e eu finalmente estamos descobrindo como o mundo é cheio de beleza. Quando éramos mais jovens, andávamos tão ocupados tentando dar conta de tudo que não enxergávamos essa beleza. Será que isso significa que enfim amadurecemos? 
Tudo é tão misterioso e bonito. Além do mais, hoje em dia somos capazes de enxergar vislumbres do mundo todo, independente de onde estivermos" (30). 

"Só o fato de estar junto já é algo maravilhoso" (37).

"...essa coisa que deixou uma marquinha minúscula no seu coração é a dor da separação. Essa dor logo vai se transformar em saudade, em sentir falta de alguém. Espero que algum dia, quando chegar a hora e você sentir essa dor outra vez, saiba então que também existe a alegria do reencontro" (42). 

"Esse desejo sincero de voar juntos, subido em giros, para uma montanha verdejante - parece que as pessoas antigamente também queriam fugir do mundo humano as vezes. Por que será que se sentiam assim naquele tempo? " (50).

"Ando mais devagar para poder observar"(56). 

" pensamentos e histórias só seus se multiplicam  todos os dias. Um mundo inteiro que pertence a Astro, e que ninguém mais pode ver" (85). 

"Uma criança dorme pesado. Sem fazer barulho, com cuidado, eu observo seu rosto. A criança está aninhada na paz" (89). 

"Por muitos anos achei que  avida não passava de uma sequencia de dificuldades, preocupações e exaustão, mas quando olho para trás agora, vejo que a vida foi linda " (100).

"A pesar de ser tão frágil, o fato de a vida ser tão imprevisível é o que a torna tão mágica" (101).

"Acho que as flores e as árvores seguem cada uma o seu ritmo" (185).

" Como foi para aquela mãe finalmente segurar nos braços o filho que nunca pode esquecer, de quem teve saudade todos os dias de sua vida? " (204). 

" Segui o olhar da gralha e olhei na mesma direção. Ali eu vi a beleza das folhas das arvores mudando de cor, momento a momento. E, pela primeira vez em um tempão, vi um céu azul sem nenhuma nuvem" (209). 

" Não tem pressa, só repita o que eu faço" (211). 

" Não vai ser fácil para você manter seu ritmo relaxado de sempre. Mas tente não se apressar demais. Tire um tempo para olhar ao redor em vez de sempre só olhar para frente" (214).

"Antigamente, os moradores de vilarejos locais não colhiam todos os caquis. Deixavam alguns para alimentar as gralhas que, de outra maneira, não teriam o bastante para comer durante os invernos muitos frios. Parece que as gralhas, que antes me pareciam amigas, agora são um incomodo para quem cultiva frutas" (250). 

"Eu realmente não sabia o que era envelhecer. Só vivia um dia depois do outro sem pensar em mais nada. Mas, ultimamente, ando notando mudanças no meu corpo" (258). 

"O inverno foi longo e frio. Ao primeiro indicio de que pode estar indo embora, as flores de cerejeira aparecem sem fazer barulho. Elas florescem todas juntas em um instante, como se quisessem compensar o fato de que vão desaparecer logo. Como sabemos que logo teremos que nos despedir delas, iluminamos as arvores e deixamos de dormir para caminhar embaixo delas a noite toda" (265).

"Você, querido, é o deus que zela pela nossa casa" (294).

"Algumas coisas em nossa vida não têm motivo" (...) Às vezes, sentimos dor e sofrimento, com uma coisa acontecendo atrás da outra, como ondas terríveis quebrando em sucessão. Há  momentos em que eu tenho medo até de ir dormir, de acordar de manhã. Há vezes em que não quero ver  ninguém, em que  a ideia de me encontrar com outra pessoa me assusta. Quando isso acontece, com a ajuda da família e dos amigos, e com a contribuição do tempo, esse medo começa a se desfazer. Então, acima de tudo, o lugar onde existe pessoas que vão me defender e dizer: 'Qual é o problema? Quem fez isso?',  o lugar que eu chamo de meu, o lugar onde minha família está, é isso que eu chamo de lar" (295).

"Se as pessoas ouvissem risadas de criança quando estivessem se sentindo tristes ou desesperançadas, talvez se esquecessem de todos os seus problemas" (...) Houve épocas em que sobreviver a cada dia parecia um desafio insuportável e avida era simplesmente exaustiva. Cada dia era uma montanha a ser escalada. Mas hoje, ao olhar para trás, vejo que cada um desses momentos foi lindo. Foram radiantes. Apesar de tudo, a nossa vida foi linda. Eu queria dizer muito dizer isso a vocês" (296).


COMO A NOSSA VIDA É LINDA.  Uma celebração do amor.
por Vovô Chan e Vovó Marina. Sextante. 2022.


quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

TORTO ARADO. De Itamar Vieira Junior. 2019. Ed Todavia, SP

 

Historia de ficção que traz em suas raízes realidade nordestina de pessoas que viveram e construíram sua famílias na escravidão...e ainda o vivem, nos interiores das veias do Brasil.

 

“De loucura meu pai entendia, assim diziam, porque ele mesmo já havia caído louco num período remoto de sua vida. Os curadores serviam para restituir a saúde do corpo e do espírito aos doentes, era o que sabíamos desde o nascimento. O que mais chegava à nossa porta eram as moléstias do espírito dividido, gente esquecida de suas histórias, memórias, apartada do próprio eu, sem se distinguir de uma fera perdida na mata” (39).

“Sem a comunicação era como se nos silenciássemos mutuamente. Era silenciar o que tínhamos de mais íntimo entre nós. Sem poder me tocar, ela não poderia sentir a vibração da respiração em meu corpo. Sem poder lhe tocar, não poderia sentir a velocidade com que o crio de sangue corria em suas veias. Não poderia saber, a partir da sua agitação interior, seus humores, se bravos ou mansos. Não poderia olhar para meus olhos e perceber, apenas com o exame de meus movimentos, o que intencionava” (52-53).

“Os objetos, os xaropes de raízes, as rezas, as brincadeiras, os encantos que domavam seus corpos, tudo era parte da paisagem do mundo em que crescíamos. Mas a transformação da mulher hesitante, que vinha na estrada em preces por misericórdia e bem-aventurança, na força que se antepunha à perturbação de uma grávida transtornada pelas dores, e talvez por espíritos que desconhecíamos, era um milagre de energia“ (59).

“A distancia me protegia das bênçãos ou infortúnios, era o que esperava. Mas também não havia sido o acaso que me trouxera aquela mensagem” (83).

“...me embrenhava pela mata nos caminhos de ida e de volta, e aprendia sobre as ervas e raízes. Aprendia sobre as nuvens, quando haveria ou não chuva, sobre as mudanças secretas que o céu e a terra viviam. Aprendia que tudo estava em movimento – bem diferente das coisas sem vida que a professora mostrava em suas aulas. Meu pai olhava para mim e dizia: ‘o vento não sopra, ele é a própria viração”, e tudo aquilo fazia sentido. ‘Se o ar não se movimenta, não tem vento, se a gente não se movimenta, não tem vida’, ele tentava me ensinar. Atento ao movimento dos animais, dos insetos, das plantas, alumbrava meu horizonte quando me fazia sentir no corpo as lições que a natureza havia lhe dado” (99).

“Meu pai, quando encontrava um problema na roça. Se deitava sobre a terra com o ouvido voltado para seu interior, para decidir o que usar, o que fazer, onde avançar, onde recuar. Como um médico à procura do coração” (100).

“”...era algo bom como as asas frágeis se movendo em meu corpo. Agora eu era uma fruta amadurecida convidando os pássaros a me bicarem...” (108).

“...deixei meu coração aquietar. Trabalhar a terra tinha desses sentimentos bons e amansar o peito, de serenar os pensamentos ruins que me cercavam” (121).

“...mas o perdão aflorava da benção que poderia ser o retorno de alguém de qual somos parte” (131).

“Sabia que, mesmo depois de muitos anos, carregaria aquela vergonha por ter sido ingênua, por ter me deixado encantar por suas cortesias, lábias que não era diferente da de muitos homens que levavam mulheres da casa de seus pais para lhes servirem de escravas. Para depois infernizarem seus dias, baterem até tirar sangue ou a vida, deixando rastro de ódio em seus corpos. Para reclamarem da comida, da limpeza, dos filhos mal criados, do tempo, da casa de paredes que se desfaziam. Para nos apresentarem ao inferno que pode ser a vida de uma mulher” (136).

O sofrer vinham das coisas que nem sempre davam certo, mas fazia sentir viva e unida, de alguma forma, a todos os trabalhadores que padeciam dos mesmos desfavorecimentos” (141).

“Via como um encanto uma casa nascer da própria terra, do mesmo barro em que, se lançássemos sementes, veríamos brotar o alimento. Quantas vezes havia visto aquele ritual de construir e desmanchar casas, e ainda me maravilhava ao ver se levantar as paredes que seriam nosso abrigo” (142-143).

“Mostrava as marcas do corpo, as que pareciam estar curadas, as que não curaram e as daquele instante. Sua raiva dizia muito das dores da alma – e sobre estas ela não falou -, aquelas que demoram a curar, as que no meio das lembranças precisamos afastar com num gesto de negação para que não se abata sobre nós o desanimo” (150).

“Quanto gente foi adentrando na solidão de meu rancho e foi dizendo que era uma roça bonita, que era maior e mais bem cuidada que a roça de muitos homens? Se admiravam quando viam que eu trabalhava sozinha. Com os olhos mediam meu corpo de cima a baixo, se pudessem me fariam disputar uma queda de braço com os homens, só para saber se a força para revirar a terra, para trabalhar o chão, vinha dele mesmo. Para ter certeza de que não era da força dos encantados em que o povo acreditava” (152).

“E o interior de uma casa era tudo que tínhamos. Guardava segredos que nunca tínhamos revelados. Guardava segredos que eram parte do que todos nós éramos naquelas paragens” (159).

“Mas nada parecia tira-lo do desligamento do mundo, cada dia um gesto a menos” (161).

“Foi a nossa valência poder se adaptar, poder construir essa irmandade, mesmo sendo alvos da vigilância dos que queriam nos enfraquecer” (178-179).

“O documento da terra não vai lhe dar mais milho, nem feijão. Não vai botar comida na nossa mesa. (...) Mas para a gente como a gente a terra só tem valor se tem trabalho. Sem ele a terra é nada” (185).

“Nasceram ervas e flores minúsculas em meio à umidade que surgia como o orvalho e com a chuva que caia quando era da vontade dos santos. Fiquei atenta a tudo o que acontecia, sabia que nada retornaria. Olhei com certo encantamento o tempo caminhando, indomável como um cavalo bravio” (195).

“Nos momentos de forte emoção, meu horizonte se embota, transbordo para os lados, não consigo reunir o que me compõe. (...) aos poucos vão desaprendendo, porque há muita mudança na vida de todos” (206).

“Não iriam ceder à violência do momento e agir de forma irresponsável para pôr em risco seus sonhos e perderem de vez a batalha. Uma voz se levantou para dizer que era preciso acalmar os ânimos, embora estivessem se sentindo em pedaços pelo que tinha acontecido. Outra exortou por temperança, para que não deixassem o ódio falar mais alto” (213).

“Nessa jornada percebeu que há vida além da Água Negra não era muito diferente no que se referia à exploração. Mas havia Severo, e os sonhos, e tudo que construíram juntos. Havia dificuldades e desentendimentos, mas havia, antes de qualquer coisa, afetos que ela mesmo não poderia definir. Afetos que envolviam suas historias e todas as coisas que apreendiam, sobre si e sobre sua gente. Como nessa jornada passaram a amar seu lugar” (214-215)!

“Quando pode compreender o que lhe aconteceu, se perguntou: Por que sempre queremos as coisas que parecem estar mais distantes de nós? (...) A mata a fez forte e sensível, ainda menina, para reconhecer o movimento do mundo. Uma vez escutou que ‘o vento não sopra, é o próprio sopro” (245).

A terra era seu tesouro, parte do seu corpo, algo muito intimo (...). Não sabia como a irmã pode morar naquela desordem de carros, casas e gente. Para ter qualquer coisa precisava de dinheiro, qualquer coisa. Na terra tinha o que colher ao alcance das mãos. Se a seca ou a cheia levasse, comia-se o que sobrava. Comia a farinha de mandioca que faziam ou colhia as sementes de jatobá para preparar o beiju. Na cidade não havia terra para revirar, para sentir a ventura, a umidade avisando que a chuva estava por chegar” (246).

“E os sons, os sons dos animais, das folhas ao vento, do rio correndo, os sons ecoavam perenes em seu interior. Fosse nas tarefas do dia ou no sono leve da noite. Então sentiu que desde sempre o som do mundo havia sido a sua voz” (248).

Cada mulher sabe a força da natureza que abriga na torrente que flui de sua vida” (260).

“Sobre a Terra há de viver sempre o mais forte” (262).

 

 

 

 

 

 

 

 

 


sábado, 6 de janeiro de 2024

EM ALGUM LUGAR NAS ESTRELAS - Clare Vanderpool. 2016




O livro conta a historia de uma amizade através da imaginação de um dos amigos. Ambos aprendem e superam suas dificuldades e compreendem as dores da vida!

"Minha mãe era como a areia. Do  tipo que o esquenta na praia quando você sai da água tremendo de frio. Do tipo que gruda no corpo, deixando uma impressão na pele par fazer você se lembrar de onde esteve e nos bolsos muito tempo depois de ter ido embora da praia. 

Ela também era como a areia que os arqueólogos escavam. Camadas e camadas de areia que mantiveram os ossos dos dinossauros juntos por  milhões de anos. E por mais que a areia fosse quente, árida e simples, os cientistas agradeciam por ela, porque sem a areia para manter os ossos no lugar, tudo teria se espalhado. tudo teria desmoronado" (26).

"Antes de as estrelas terem nomes, antes de os homens saberem como usá-las para traçar seus caminhos, antes de alguém se aventurar além do próprio horizonte, existia um menino que se perguntava o que havia além de tudo aquilo. Ele olha para estrelas com admiração e fascínio, mas o fascínio não era consequência só da veneração. Era fruta também de uma pergunta: por quê?" (44).

" Ela viu o filho tornar-se o primeiro a seguir as perguntas que queimavam em seu peito e partir pela luz das estrelas. Seu Polaris seria o primeiro navegador. Mas Pi ainda não merecia seu nome" (45). 

"Esta passando para a parte da navegação cedo demais. Talvez deva se concentrar na beleza daquelas estrelas lá em cima, em vez de pensar só na função delas. Olhe para elas, admire-as, deixe que o fascinem, antes de esperar que elas o guiem. Além do mais, quem pode dizer que um grupo de estrelas te que ser sempre igual? Aquelas estrelas lá em cima são atraídas umas pelas outras de muitas maneiras diferentes. Conectam-se de formas inesperadas, como as pessoas" (às vezes, começamos cedo demais) (47).

"...o que é mais importante, a alma ou a mente? Somos responsáveis uns pelos outros, ou só por nós mesmos? Existe essa coisa chamada mistério, ou apenas aquilo que ainda não é compreendido?" (83).

"Contudo, ele partiu. Afinal, não estava procurando um novo lar. Era um viajante. Um navegador. Alguém que segue traçando um curso e procurando o caminho. E ele ainda procurava seu caminho" (84). 

"Olhar pela janela era como encarar um oceano profundo, escuro, e eu me imaginei flutuando, boiando à deriva sob um céu sem estrelas" (94). 

"O fim do mundo. Era onde eu tinha ido parar também. E sabia que era um lugar de onde não era fácil voltar." (172). 

"Mas o equilíbrio entre vida e morte é precário. depois de um tempo, Pi sentiu esse equilíbrio mudar dentro dele. E a mudança o deixou tonto. Ele deu mais um passo, e onde esperava encontrar chão sólido, só havia um abismo escuro. Sem nenhum ruído, sem um suspiro sequer, ele desapareceu" (208). 

"Ligar os pontos. Minha mãe dizia que olhar as estrelas tinha  a ver com isso. 'Lá em cima é como aqui embaixo, Jackie. Você precisa procurar as coisas que nos conectam. Encontrar os jeitos com que nossos caminhos se cruzam, nossas vidas se interceptam e nossos corações se encontram. Quando comecei a prestar atenção, percebi todo tipo de cruzamentos, intersecções e encontros" (272).